Segurança nos grandes eventos internacionais e o que esperar desse legado para o mercado Brasileiro

Tema frequente em matérias de jornais, revistas e televisão, a economia brasileira colocou o país em posição de protagonista no cenário mundial. Atualmente ocupando a sexta posição no ranking das maiores economias, com um PIB de U$ 2,48 trilhões em 2011, o país atrai cada vez mais investimentos e eventos internacionais, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

 

Com a proximidade das datas, os preparativos para esses grandes eventos, e em especial a Copa do Mundo, estão cada vez mais acelerados. Diversos setores da economia estão se desenvolvendo na expectativa dos jogos, caso do segmento de Prestação de Serviços, com destaque para o Mercado de Segurança Privada, que terá um papel fundamental para o bom desenvolvimento dos jogos.

 

Sendo amante de esportes, como futebol, basquete, vôlei, corridas automobilísticas e principalmente tênis, tive a oportunidade de viajar o mundo acompanhando grandes eventos e torneios. Após os anúncios do Brasil como sede para a próxima Copa do Mundo e Olimpíadas, comecei a observar e a estudar mais atentamente as características de Segurança em cada um dos torneios que assisti, e gostaria de dividir com os leitores algumas experiências em 03 cases:

 

Case 01 – Jogo de Basquete na NBA – National Basketball Association

 

Considerado o melhor basquete do mundo, a NBA, liga Norte-Americana de basquete, é sucesso de publico e de audiência ao redor do planeta, inclusive no Brasil. Assistir a um jogo da NBA é como ir a um grande espetáculo em uma das melhores casas noturnas de São Paulo. Não é apenas um simples jogo de basquete, mas um grande show de entretenimento, com infraestrutura impecável, conforto garantido e várias opções de lojas e restaurantes. Nos jogos da NBA é permitido o consumo de álcool, porém bebidas alcoólicas com alto teor, como as vodcas, são limitadas a duas doses (ou drinks) por pessoa, controladas através da apresentação de documento de identidade no momento da compra.

 

Um jogo que acompanhei foi entre Miami Heat X Orlando Magic, no estádio dos Heats, o American Airlines Arena, com capacidade para 19.600 espectadores. A entrada no estádio é liberada apenas uma hora antes do inicio da partida, e o público que chega antecipadamente aguarda de forma tranquila pela abertura dos portões. Existe um forte aparato policial no local, dando segurança no entorno e principalmente coordenando o trânsito de carros e o fluxo de pedestres.

 

Na entrada, o controle de acesso é rigoroso. Enquanto aguardam na fila, as pessoas são instruídas a retirar todos os pertences dos bolsos, como celulares, câmeras e carteiras. Também é frisada a proibição de entrar com armas de fogo e de portar drogas. Por fim, uma revista detalhada é feita por um Agente de Segurança, e só após esse procedimento é que é permitido o acesso ao estádio.

 

 Já sentado em meu local, percebi que não existe nenhuma barreira física que impede o público de invadir a quadra, entretanto uma mensagem no telão deixa bem claro que a invasão é crime e que será punida com todo o rigor, com a prisão do infrator, segundo as leis vigentes.

 

Em quadra, apenas três agentes de segurança são facilmente identificados pelos expectadores. Dois postados próximos ao time da casa, os Heats, e um junto ao time de visitantes, os Magic. Pelo meu conhecimento, diria que a maior preocupação desses agentes é uma invasão de algum fã na tentativa de assediar um dos jogadores e não de um atentado contra o bem estar dos atletas, embora o risco exista e deve sempre ser considerado.

 

Com exceção do controle de acesso na entrada e dos três Agentes de Segurança postados na quadra, a presença da Segurança Privada era bastante discreta e, por muitas vezes, passava despercebida pelo público, mas nem por isso foi menos eficiente.    

 

Case 02 – Torneio de Tênis Master 1000 em Miami

 

O torneio de tênis de Miami é realizado em um complexo chamado Crandom Park, na ilha de Key Biscayne. O local ocupa uma área enorme com 18 quadras de tênis, conta com um estádio secundário, o Grandstand, e a quadra central, com capacidade para 13.300 pessoas. Nos primeiros dias do evento, podem ocorrer até 12 jogos simultaneamente, entre simples e duplas, masculinas e femininas. O torneio todo é realizado em quinze dias.

 

Além da parte esportiva, existe uma grande estrutura de restaurantes, lojas e diversos estandes de patrocinadores, que promovem os mais variados tipos de produtos e serviços: de chocolates a carros exóticos, passando por companhias aéreas a bandeiras de cartões de crédito. Até o Governo do Estado do Rio de Janeiro marcou presença com um estande, promovendo a cidade e os eventos internacionais que irá sediar.

 

Semelhante ao jogo da NBA, o Polícia coordenou o trânsito local e garantiu a circulação tranquila das pessoas, além de dispor de um centro tático de operações situado no estacionamento.

 

O controle de acesso nada lembrava o rigor do jogo da NBA. O único procedimento necessário para adentrar ao complexo de tênis era a apresentação do ingresso, e ao invés de Agentes de Segurança, voluntários conferiam os tickets e liberavam a entrada.

 

Normalmente, os portões eram abertos às 10hs na seção diurna e às 18hs na seção noturna, ou seja, com uma hora de antecipação em relação aos jogos da quadra central. Porém uma situação atípica me chamou a atenção: um dos patrocinadores do evento, uma famosa bandeira de cartões de crédito, fez uma promoção onde os portadores de determinado cartão podiam entrar no complexo através um portão alternativo, e com uma hora a mais de antecedência em relação à abertura oficial das seções, ou seja, às 09hs e às 17hs. Nessa situação, a participação da Segurança Privada foi fundamental. Imaginem os graves problemas que poderiam ocorrer caso os organizadores não trabalhassem de forma conjunta com a Segurança, pois havia pessoas circulando por todo o complexo uma hora antes da previsão inicial.

 

Dentro de todas as quadras, e inclusive na central, havia um esquema reforçado de Segurança, visando garantir principalmente a proteção física dos jogadores. Apesar de não haver barreiras físicas impedindo uma invasão, Seguranças Privados se posicionavam nas quatro extremidades da quadra, além de ocupar outros pontos estratégicos. Toda essa preocupação é justificada pelo atentado ocorrido no Aberto de Hamburgo, na Alemanha, em dia 30 de Abril de 1993, quando uma das melhores tenistas da década de 90, a americana naturalizada, Mônica Sales, foi esfaqueada por um “torcedor” fanático da sua rival, a Alemã Stefi Graf, enquanto descansava entre os games da partida. O golpe, por poucos centímetros, não acertou a medula espinhal de Seles, que se recuperou fisicamente, mas nunca mais apresentou o mesmo nível de jogo.

 

Case 03 – Torneio Grand Slam de Tênis – Nova Iorque

 

Conhecido como US Open, o torneio de tênis de Nova Iorque é considerado um dos quatro grandes do mundo (Grand Slam). Os jogos são disputados em um complexo conhecido como Flushing Meadows, que conta com 32 quadras, um estádio secundário, o Louis Armstrong Stadium, que comporta quase 18.000 pessoas, além da quadra central, o Arthur Ashe Stadium, com capacidade para 22.547 pessoas, o maior estádio de tênis do mundo. Os jogos são disputados durante duas semanas de competição.

 

Aparentemente, podemos acreditar que as estruturas de Segurança entre o torneio de Miami e o torneio de Nova Iorque são idênticas, pois contam com o mesmo público, além de patrocinadores e promotores semelhantes. Fazer tal suposição é um grande engano.

 

O público não é o mesmo. As características das cidades são completamente diferentes. Miami é uma cidade de praia, clima quente e forte influencia latina, enquanto Nova Iorque é uma locomotiva de negócios e oportunidades, uma megalópole multicultural e multirracial.

 

Não podemos esquecer os atentados de 11/09. Nova Iorque ainda sente os impactos e as consequências dos atos terroristas. Engana-se quem acredita que o modo de vida dos cidadãos nova-iorquinos não mudou depois da derrubada das torres gêmeas.

 

Na entrada do torneio, um rigorosíssimo esquema de Segurança recebe o público. Semelhante ao controle feito nos aeroportos, o publico é revistado e os pertences são checados. A grande diferença em relação à Miami é a proibição de entrar no complexo portando volumes, como bolsas, sacolas e mochilas. Todos esses pertences devem ser acondicionados em armários (Lockers), localizados em áreas próximas, porém fora do perímetro do complexo. Uma clara e obvia preocupação contra artefatos explosivos.

 

Dentro de Flushing Meadows a preocupação com a Segurança é latente. Diferentemente da NBA e do torneio de Miami, a Polícia de Nova Iorque (NYPD) não ocupa somente as áreas externas e de entorno do complexo, mas adentra o torneio, posicionando homens em pontos estratégicos e circulando entre o público. A Segurança Privada também tem o seu papel e atribuições, e trabalha de forma integrada com as Forças Policiais.

 

A presença marcante da Polícia, ostentando armamentos letais e não letais, ao mesmo tempo em que, tranquiliza o público, acaba criando um leve mal estar, pois constantemente recordamo-nos dos atentados e ficamos em um leve estado de alerta. No caso específico de Nova Iorque, a Segurança não passa despercebida, deixa de ser uma coadjuvante do espetáculo para ser uma das protagonistas.

 

Políticas de Segurança

 

Os três cases acima ilustram muito bem a realidade dos grandes eventos mundiais, da qual o Brasil não somente irá participar, mas será o centro das atenções.

 

Uma das conclusões que tiro das visitas que fiz a esses torneios, é que não existe uma fórmula mágica para o dimensionamento dos recursos de segurança, e quando digo recursos, falo em pessoal qualificado e treinado, equipamentos eletrônicos e normas e procedimentos. Cada caso é único e assim deve ser tratado.

 

Muitas variáveis afetam a Segurança em eventos, como por exemplo, o tipo de público (jovens, adultos, religiosos, roqueiros, esportistas, etc.), o valor dos ingressos (podem ser grátis), a quantidade de pessoas esperadas (capacidade do evento), o local a ser protegido (ambiente fechado ou aberto – local privado ou público), a criminalidade no entorno (estatísticas de roubos, furtos, etc.), os bens materiais que farão parte do evento, a época do ano e intempéries (chuva, neve, sol excessivo), e assim por diante.

 

Além de todas essas variáveis, os organizadores de grandes eventos esportivos, como a FIFA – Copa do Mundo, o COI – Comitê Olímpico Internacional, e podemos incluir também a FIA, promotora das corridas de Formula 1, têm muito bem definidas e estabelecidas as suas prioridades e procedimentos em relação ao tema Segurança. Todos esses organizadores possuem o que chamamos de Política de Segurança, documento oficial que serve de base para o tratamento dos riscos e questões de Segurança, por exemplo, controle de acesso, entrada de armas e drogas, vendas de ingressos por cambistas e atendimento ao público, entre tantos outros pontos.

 

Vamos utilizar os cases acima para analisar um dos pontos de uma Política de Segurança, no caso, a preocupação com entrada de armas de fogo e drogas em um evento esportivo. É notório que pela legislação americana, o porte de armas e drogas é proibido em todos os três cases, porém na Política de Segurança da NBA, está definido como prioridade o combate a esse tipo de ocorrência. Devido a essa preocupação, é feito no controle de acesso na entrada do público um procedimento rigoroso de busca e repressão à posse desses itens.

 

 O mesmo raciocínio se aplica aos demais itens constantes da Política de Segurança em eventos. Quando combinados com as variáveis que afetam a Segurança, podem ter ou não prioridade de investimento, e é importantíssimo ressaltar que os pontos que não são prioritários, também foram identificados, analisados e tratados.

 

Legado para a Segurança Privada no Brasil

 

Vamos utilizar como modelo de analise a Politica de Segurança da FIFA para a Copa do Mundo. Esse documento é riquíssimo e traz conceitos inovadores para o país. Se bem utilizada e incorporada às normas procedimentos legais do nosso segmento, deixará um grande legado para o Mercado de Segurança Privada Brasileiro.

 

Um dos pontos primordiais da Política de Segurança da FIFA é o trabalho em conjunto entre as Forças Policiais e a Segurança Privada. O conceito utilizado nos eventos da FIFA é ter dentro dos estádios, Agentes de Segurança conhecidos como Stewards, que são os responsáveis pelo atendimento e orientação ao público. É importante destacar que na Política de Segurança da FIFA, uma das prioridades é o atendimento às pessoas e a excelência no tratamento com o público.

 

Os Stewards serão vigilantes formados, com um curso de extensão específico para trabalhar em jogos da Copa do Mundo. Eles poderão atuar em pequenos confrontos e incidentes, sendo certo que os casos graves serão tratados diretamente pelas Forças Policiais competentes, que estarão posicionadas em pontos estratégicos caso haja a necessidade de intervir. Entretanto, ainda não existe previsão legal para o trabalho dos Stewards, mas a Polícia Federal está analisando a melhor maneira de formá-los e implanta-los, em concordância com a legislação que disciplina a Segurança Privada no Brasil.

 

Com o trabalho dos Stewards nos estádios, protegendo pontos como estacionamentos, bilheterias, catracas, e principalmente, áreas destinadas ao público, imprensa e atletas, as Forças Policiais poderão ser utilizadas de forma mais eficiente para proteger áreas públicas, como os arredores dos estádios, as zonas turísticas e as “Fan Fests” (praças abertas onde serão instalados telões para acompanhamentos dos jogos). Vale lembrar que atualmente a Segurança dos Estádios no Brasil é feita exclusivamente pela Polícia Militar.

 

Outro ponto que merece destaque é o conceito de Segurança de “Mãos Limpas”, onde os Agentes de Segurança que interagem diretamente com o público não carregam armas, sejam letais ou não letais. Esses Agentes são treinados em técnicas de defesa pessoal e imobilização, e terão todos os recursos para resolver os pequenos incidentes. As Forças Policiais que carregam armamento e equipamento para controle de multidões ficarão posicionadas em pontos estratégicos, porém longe dos olhos do público.

 

Analisando mais uma vez os cases apresentados, fica claro que o torneio de tênis de Nova Iorque, por razões que todos conhecem, manteve uma postura mais conservadora em relação a Segurança, mantendo as Forças Policiais ostentando armamento e ocupando diversas posições dentro do complexo. Em contrapartida, nos jogos de basquete da NBA e no torneio de tênis de Miami, o conceito de Segurança de “Mão Limpas” foi implantando com sucesso, e nem por isso ofereceu um nível menor de Segurança ao público presente.

 

Conclusão

 

O Mercado de Segurança Privada Brasileiro está investindo e se preparando para atender as grandes demandas e exigências dos eventos internacionais, principalmente na formação, treinamento e capacitação dos vigilantes que serão escalados para trabalhar nos estádios, hotéis, shoppings e tantos outros pontos de interesse.

 

Porém é necessário ir além. Na preparação para os eventos, estamos entrando em contato com novos conceitos e formas de trabalho. É o momento ideal para debater e discutir pontos de melhorias para o Mercado de Segurança Privada, para quebra de antigos paradigmas e a aprovação de novas leis que modernizem e moralizem o segmento, além de ampliar a área de atuação.  

 

O Estatuto da Segurança Privada que há anos está em formatação, e que vem sendo debatido entre Governo, Empresários e Trabalhadores, com o advento da Copa do Mundo e das Olimpíadas, parece encontrar forças e condições ideais para finalmente ser aprovado, e assim, ser capaz de revolucionar o mercado. O verdadeiro legado que a Copa do Mundo e as Olimpíadas deixarão para a Segurança Privada Brasileira vai muito além do trabalho a ser realizado em campo, durante os eventos. Com a aplicação de novos conceitos, práticas e principalmente dando forças para a aprovação do Estatuto da Segurança, permitirão um novo ciclo de crescimento, modernização e profissionalização, que se estenderá por muitos anos após o termino dos jogos.

Gabriel Ribeiro Tinoco

DSE, ASE, CES é Diretor Financeiro e Comercial do Grupo Muralha. Administrador de Empresas pela PUC-SP. Pós-graduado em Planejamento e Controle Empresarial pela FAAP-SP. MBA em Direção de Segurança Empresarial pela Universidade Comillas de Madrid – Espanha. MBA em Gestão Estratégica de Segurança pela Universidade Anhembi-Morumbi. Master em PNL. Certificado de Especialista em Segurança pela ABSO. Certificado de Analista de Segurança Empresarial pela ABSEG. Diretor de Segurança Privada da ABSEG. Presidente da ASIS Chapter 214 – São Paulo – Brasil. Colunista de jornais e revistas.